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dez

Projeto de Vida na escola

Se voltarmos um pouco na história, perceberemos que a busca pelo sentido e propósito para a vida é algo milenar – é uma busca contínua, uma preocupação na história. Várias teorias, tanto na Religião, na Ciência, na Filosofia, ou na Antropologia foram construídas buscando-se compreender e identificar esse propósito.

Na Psicologia, um grande autor a trazer estas questões foi um psiquiatra austríaco, chamado Viktor Frankl, um sobrevivente do Holocausto da Segunda guerra. Em seu livro “Um sentido para a vida”, nos apresenta o desejo de sentido como um “valor de sobrevivência”. Ele relata que aprendeu essa lição nos três anos passados no campo de concentração em Auschwitz e Dachau:

“As coisas mais idôneas para a sobrevivência nos campos de concentração eram as orientadas para o futuro – para uma tarefa ou para uma pessoa que, durante a espera, eram projetadas no futuro e para um sentido da vida que, no futuro, iriam realizar”. (p. 28).

No livro, ele ressalta ser bem verdade que a única coisa que pode sustentar o ser humano em situações de adversidade extrema, como aquela vivida em Auschwitz e Dachau, é “a consciência de que a vida tem um sentido a ser realizado, ainda que no futuro”. (1989, p. 28).

A necessidade de se construir sentido, de se ter um projeto de vida é universal e intrínseco ao ser humano. Os jovens precisam, portanto, se conscientizar de que precisam escolher um caminho, encontrar o propósito de suas vidas. Para isso, o sistema educacional brasileiro vem se estruturando e passando por uma grande reviravolta, objetivando esse aprendizado.

Projeto de vida na educação

O mundo está em constante mudança. Não se admite mais uma prática pedagógica sem diálogo, sem ouvir o aluno que permita a troca de ideias, a elaboração de materiais por meio de construção coletiva e projetos interdisciplinares, o que facilita a ampliação dos horizontes, a pluralidade de ideias e a motivação dos alunos. Colocar o aluno dentro do processo e utilizar novas metodologias e tecnologias se faz necessário a fim de se cumprir os anseios das juventudes do sec XXI.

Recentemente, foi publicada uma Base Nacional Comum Curricular, que, segundo o MEC “é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica”.

O documento traz, em seu texto introdutório, dez competências gerais, que devem nortear o trabalho em todas as etapas de ensino.

Estas etapas estão divididas da seguinte forma:

• Cognitivas

  • Conhecimento
  • Pensamento científico, crítico e criativo
  • Repertório cultural (Cultura)

• Comunicativas

  • Linguagens
  • Argumentação
  • Tecnologias Autonomia e autogestão

• Socioemocionais

  • Autoconhecimento e autocuidado
  • Empatia e cooperação
  • Responsabilidade e cidadania

Podemos perceber que a educação que se espera, frente ao mundo em constante transformação, é uma educação que contemple o ser humano integral. Não somos somente seres de cognição, de aprendizagens. Somos seres de comunicação, afeto e relacionamentos.

É preciso oferecer oportunidades de desenvolvimento integral na escola. Estamos hoje diante de um desafio: rever o que não foi alcançado no passado, que está expresso nos nossos baixos índices educacionais, sem deixar de olhar para o futuro, que requer de nós novos olhares sobre as necessidades da modernidade, tais como educar para desenvolver competências para a vida, o convívio e o mercado de trabalho.

Devem ser abordados temas que explorem de forma mais complexa o comportamento empreendedor, a inteligência emocional, o autoconhecimento (potencialidades e fragilidades), os planos de ação. As tomadas de decisões, o relacionamento com a liderança, o planejamento e a inovação, a Ética, competências socioemocionais na vida pessoal, social, produtiva e a conquista da cidadania. Assim como o viés econômico, o uso adequado do dinheiro, as formas de poupar e de doar, os valores monetários e humanos, o empreendedorismo social e sustentável, entre outros.

Projeto de vida previsto na Legislação

Outra grande novidade no cenário educacional brasileiro é a Reforma do Ensino Médio. Diante dos índices de evasão e falta de interesse dos estudantes com a escola, ficou claro a necessidade de mudanças. As juventudes brasileiras precisam compreender o sentido da vida, aprender a planejar, sonhar e empreender para realizar seus projetos.

A escola estava longe de atender estas expectativas. Pautada apenas em promover um amontoado de conteúdo, muitos deles sem sentido para as práticas sociais e o mercado de trabalho, a escola se viu tensionada a mudar sua perspectiva.

Em 2017, foi publicada a Lei 13.415, que descreve como deve ser o novo Ensino Médio. Foi apresentada então uma proposta de vanguarda, que coloca o aluno como protagonista da sua história, cujo centro da nova proposta é trabalhar em torno do seu Projeto de vida.

Segundo o Art. 27. (Lei 13415) da referida lei, a proposta pedagógica das unidades escolares que ofertam o Ensino Médio deve considerar:

XXIII – o Projeto de vida e carreira do estudante como uma estratégia pedagógica cujo objetivo é promover o autoconhecimento do estudante e sua dimensão cidadã, de modo a orientar o planejamento da carreira profissional almejada, a partir de seus interesses, talentos, desejos e potencialidades.

As diretrizes curriculares do Ensino Médio também foram reformuladas.

Segundo o artigo 3.º das Diretrizes Curriculares Nacionais EM:

§ 7.º Os currículos do Ensino Médio deverão considerar a formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho voltado para a construção de seu Projeto de vida e para sua formação nos aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais.

Segundo documentos publicados pelo CONSED, recomenda-se que seja transformado em componente curricular com carga horária de, pelo menos, dois tempos de aula por semana, a ser desenvolvido ao longo de dois ou três anos de Ensino Médio.

Que elementos podemos destacar no trabalho com Projeto de vida?

O Projeto de Vida deve promover a reflexão do estudante sobre planejamento individual e coletivo, vida em sociedade, mundo do trabalho e prosseguimento dos estudos. É o trabalho pedagógico intencional e estruturado que tem como objetivo primordial:

  • Desenvolver a capacidade do estudante de dar sentido à sua existência;
  • Aprender a reconhecer as opotunidades e a tomar decisões;
  • Planejar seu próprio futuro;
  • Agir no presente com autonomia e responsabilidade.

Os elementos primordiais que podemos destacar são o engajamento, o estabelecimento de metas, a descoberta do sentido da existência e o impacto para além de si, ou seja, ele também alcança o outro, por isso deve ser pautado pela Ética.

O que é importante se considerar no Projeto de vida?

Em primeiro lugar, é necessário se pensar na esfera do desejo. O que você gosta de fazer? O que lhe dá prazer ao realizar? Em quê você demonstra habilidade?

Estas indagações devem ser feitas em três grandes dimensões:

  • Na esfera pessoal
  • Na esfera profissional
  • Na esfera social

Portanto, o primeiro passo dessa jornada é o AUTOCONHECIMENTO, através de uma construção pessoal que lhe garantirá uma tomada de consciência, para, então, considerarmos as escolhas de vida que nos são propostas. Para isso, é imprescindível que o jovem consiga identificar sentimentos, emoções e concluir um ciclo de aprendizado sobre a afetividade.

Nossas escolhas passam pelas nossas crenças, valores, gostos e estilo de vida e esses valores fazem parte do nosso sistema afetivo, portanto, é necessário um conhecimento a esse respeito.

Desafios do educador

O grande desafio dos educadores é entender que tipo de ações desenvolver, que possam favorecer a projeção de sentimentos positivos dos alunos sobre os princípios éticos e sobre as questões da sua própria vida. É preciso ter intenções educativas claras, direcionamentos, com ações e planejamentos bem elaborados e estruturados, para que se potencialize a construção do projeto de vida de cada educando.

O caminho mais curto para ajudar os alunos a concretizarem seus projetos de vida é trabalhar a partir de seus contextos, sonhos e sentidos. Conduzi-los pensar, e principalmente, refletir. Esta é a grande função da escola: proporcionar um ambiente de escuta e reflexão, forjando um espírito crítico e empreendedor.

Caminho a seguir

Para estruturar um trabalho que visa ajudar o aluno nessa construção pessoal é preciso planejar. Segundo orientações do CONSED, para implantação da reforma do novo Ensino Médio, é necessário dividir o trabalho de Projeto de vida na escola da seguinte forma:

Na 1.ª série, sugere-se que o foco seja o autoconhecimento, até mesmo para permitir que o estudante faça escolhas mais assertivas ao longo de sua vida e da carreira;

Na 2.ª série, recomenda-se que a ênfase recaia sobre a ampliação de repertório e possibilidades, para se diversificar as opções e se expandir os horizontes dos alunos. É o momento de se mostrar possibilidades profissionais, habilidades e competências a serem desenvolvidas, programas de desenvolvimento pessoal;

Na 3.ª série, a busca maior é por orientar os jovens ao mundo do trabalho, conhecendo melhor as profissões, os cursos de graduação, as empresas nacionais, internacionais e suas inúmeras possibilidades de atuação.

Todo o processo deve ser permeado por vivências que lhes permitam desenvolver competências como autoconfiança, autocuidado, determinação, resiliência, dentre outros.

Concluindo

A escola não pode ter como objetivo apenas ensinar os alunos a resolver problemas matemáticos ou ler e interpretar os clássicos da Literatura. Ela deve preparar os alunos para resolver problemas da vida, aproveitar as oportunidades, escrever belas histórias, sentir-se livre e responsável na sociedade, superar suas dificuldades e resolver seus conflitos – a maioria deles, internos.

Ajudar um aluno a construir seu Projeto de vida é, sem dúvida, ressignificar sua própria existência.

Escrito por Priscila Boy- Pedagoga, diretora da Priscila Boy Consultoria

 

 

 

 

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